2 Palavras - Sinhá
Crua e Fome, por Sinhá.
Crua e Fome, por Sinhá.
boiando
na água até o pescoço
corações afogados
pedem socorro
de boca na boca.
-x-
quero secar você
do nosso suor
no meu varal.
-x-
você
esquentou
aqui dentro
das minhas
roupas
de pele.
-x-
quero estar
à beira do rio
que cai
dos teus olhos.
Sinhá
Produção de áudio por Tomaz Sá
eu estava dentro
de uma garrafa
e ele chovia
em mim.
torcia
seu corpo
cansado
que enchia
tudo em volta
até a boca.
mergulhada
no seu resto
seca do meu ar
fiquei ali
sem quase nada
de tudo
que ele levou.
cada vez que me olhava,
roubava um pouca minh´alma.
Sinhá
cortes aparecem no corpo
por onde nascem rosas,
um corpo-jardim.
o meu sangue pensam água,
e desse beber
crescem cada vez mais vermelhas,
e pingam, pingos quentes,
e dói.
cuidado com os espinhos das rosas em mim
Sinhá
Fomos iluminados pela presença da poetisa Sinhá! Natural da cidade do sol, veio para brilhar no nosso humilde PodCast. Mostrou que de crua não tem nada. Apenas as cores da sua poesia. Compartimos, como de hábito, refrigerante e esfihas. E partimos para a gravação.
Sinhá é artista plástica com belo trabalho e poetisa. E mostra que sabe escolher as tintas com que colore seus versos. Sua poesia já há muito impressiona bem quem a assiste nos diversos saraus da cidade. E não contrasta com todo seu porte e beleza.
Quando Sinhá abre o verbo, inunda a todos com a beleza de sua verve poética. Solar mas dolorida, sabe transparecer sua litoraneidade sem jamais abdicar do universal. Suas linhas exalam angústia e beleza, como quem busca na poesia o respiro para os afogados.
Pedro Tostes - Editor
tu não sabes dos meus vazios
eu também não sei dos teus
cada um só sabe de si
e no entanto és tão Deus quanto eu.
tu não sabes da minha extensa lista
de cartas não respondidas, da angústia
que sinto em cada tiro dado no corpo
do meu sonho pelos outros esburacado
eu também não sei das tuas correspondências
cada um só sabe do valor dos próprios selos
e no entanto nossas palavras
são profundamente análogas.
tu não sabes dos livros que li
eu não sei das tuas viagens por aí
cada um só sabe das únicas imagens
das paisagens vistas por suas janelas exclusivas
a noite na ótica dos outros é sempre mais bonita
e no entanto as páginas e os espaços
no sutil falam dos mesmos pássaros.
tu não sabes das coisas que fiz por ti
só sabes das coisas que fizeste por mim
eu não sei das coisas que por mim fizeste
só sei das coisas que por ti fiz
e assim seguimos adiante
enumerando favores jamais valorizados
somos todos abundantes doadores de sangue
que após atropelamento morrem secos por não haver
sangue disponível daqueles que de nós receberam
e no entanto a morte é a mesma
no teu leito mais justo do que o meu
no meu leito mais justo do que o teu
morremos.
tu não sabes da minha infância
das borboletas e mariposas negras
que alucinaram meu sono nos primeiros anos
eu também não sei dos teus pesadelos
dos teus despedaços em família
dos teus invernos em pleno verão
das tuas chuvas dominicais
somos assim todos protagonistas
estrelas das experiências incompáraveis
e no entanto nossas lágrimas são feitas da mesma água
tua roupinha de bebê um dia serviu em mim
assim como a minha um dia em ti serviu.
tu não sabes das minhas verdades
mas sabes como ninguém das minhas mentiras
assim como não sei das tuas verdades
mas sei das tuas mentiras como ninguém sabe
e no entanto ninguém sabe de nada
ninguém sabe o que é mentira
ninguém sabe o que é verdade.
tu não sabes o que enxergo
quando fecho meus olhos
tu não sabes nem mesmo
o que enxergo com eles abertos
tu nem ao menos queres saber
o que passa dentro ou fora deles
e eu na minha tão ampla visão
não enxergo nos teus olhos o desdém
porque nem ao menos enxergo
que tu também olhos tens
e no entanto existe feiúra na beleza
assim como existe beleza na feiúra
diante de todos desencontrados olhos.
esta é a solidão tal qual ela é
eu falo mãe tu falas pai
eu falo pai tu falas mãe
ambos incompreendidos
maiorais no seu sentir
e no entanto os vazios são os mesmos
todos defecam do mesmo jeito
mas a tua bosta é menos
fétida do que a minha
mas a minha bosta é mais
cheirosa do que a tua
e mesmo quando trocamos tais adjetivos
não há o entendimento preciso
afinal cada um só sabe
e só quer saber de si
pobres Diabos que somos aqui.
Isadora Krieger
Produção de Áudio: Pedro Zopelar
Isadora Krieger - Rotação (Cabaret Revoltaire Remix) by Poesiapod Poesia
Sutil & Sangue, por Isadora Krieger.
eu queria escrever um poema
que te atingisse como espada a face
e fizesse dela pedacinhos imutáveis
eu queria te ver com a bunda de fora
catando agachado teus destroços
no chão com a certeza que é em vão
eu queria escrever um poema
que te arrancasse a máscara da indiferença
tão habilmente dissimulada de argúcia
e no bueiro mais próximo teu invólucro
se debatendo sem volta no espanto próprio
eu queria escrever um poema
que te perfurasse os olhos
os fizesse sangrar e não apenas chorar
a lágrima logo esquece o motivo de ser
o sangue mesmo depois de ressequido
impregna no cerne incontroláveis vestígios
eu queria escrever um poema
que te borrasse a boca de palhaço
torta de tantos circunlóquios
que te fizesse uivar como bicho selvagem
esquecido das convenções e dos protocolos
no estado fundamental da vida primitiva
as serpentes malditas e precisas
que aqui infelizmente são fantasiadas
de inocentes bonequinhas
eu queria escrever um poema
que te arrebentasse as narinas
cheias das plásticas tão bem executadas
que te poupam de cheirar o escabroso do mundo
que te emprestam a ilusão de não fazeres parte dele
mas não adianta se encharcar de perfume caro
a tua tumba pode até ser de mármore
entretanto há sempre a mesma decomposição
na carne de primeira ou não
eu queria escrever um poema
que te entortasse sem retorno o crânio
que te expulsasse deste lugarzinho cômodo
e confortável que ao longo dos anos
construíste com tamanho apreço
mero terror encoberto de amor satisfatório
porque permanecer apenas um instante só
é se deparar indubitavelmente
com o privativo manicômio,
e daí?
há mais alma no inferno de dante
do que na terra lacrada dos ditos “artistas”
especialistas em rimbaud monet e truffaut
mas ignorantes quando se trata da cigana maltrapilha
eu prefiro sem dúvida um Demônio genuíno
à um Deus limitado exigindo diploma embaixo do braço
eu desejo ansiosamente o teatro mágico
entrada só para loucos para raros
mas as minhas palavras só vão até um pedaço
e tem prazo curtíssimo de validade.
viva a era da esquiva!
dos pintos paliativos, das pintas prostituídas,
- oh! minha flor, que dor meu amor!
viva a poesia na creche detida!
o poeta ajoelhado na superfície do próprio ralo,
que logo depois de dar voz aos seus superlativos
versos abandona o recinto da vida.
viva a era da não posteridade!
um viva especial para os jovens anciões!!
histriões desdentados, paladinos sem cavalos,
batatinhas quando nascem que se julgam
mundos vastos mundos.
viva o retrocesso!
os órfãos de vivos e legítimos mestres!
- oh! doutor, a esperança se findou!
dá-me um bocadinho de estricnina, por favor!
- oh! minha filha, mas a estricnina, faz tempo,
acabou.
pois então viva os venenos deselegantes!
a falta de vanguarda até na maledicência!
viva a era do maomeno!
do quase, do café morno,
do chope quente, do gozo frio,
“a volta dos que não foram”
viva o tropo pobre do nosso estandarte!
um viva especial para a extinta recíproca!!
antagônicas salivas, para o suicídio do raríssimo!!
que não nos escreveu nem um bilhete de despedida,
viva a era do sexo seguro da paixão caolha e
do amor perneta, viva o casal vinte da nossa era!
viva as bundas cada vez mais descomunais e os
cus cada vez mais assustados, no círculo reprimidos,
psicologicamente apertados.
viva os blá-blá-blás-ad-infinitum e
os já-já-jás-ad-valacomum! viva a era
do falatório demasiado e do dizer abortado!
um viva aos chatos repletos de dúvidas!
um viva mais alto aos repletos de certezas,
ainda mais chatos do que os primeiros!
- oh! meu pai, a simplicidade se esvai!
os intelectuais de pRantão a mataram para
dar de comer ao próprio ego, apunhalaram
com a complexidade supérflua até
o curto e o direto.
viva a era das gaiolas planejadas
especialmente para uma vida medíocre!
oh! sobrevivência, dia após dia abro as pernas para ti!
e tu nem sequer fumas comigo o cigarrinho do:
“foi bom pra você assim como foi bom pra mim”?
pois então viva os seus arquitetos!
nós homo “sapiens”, que trocamos diariamente
a vida pela morte como quem troca pelota de cocô
por bombom de licor, viva a era do resumo!
do Super-Conciso, da economia de substantivos!
viva a era do “japão se recupera do choque”
e logo abaixo na outra capa dicas de moda!
um viva mais do que especial para os teimosos!!!!
covardes ou corajosos, que insistem em nos
disseminar, cientes ou cegos, que a
formidável raça humana,
já era.